Ensaio para possível tema de TCC

Linguagem e Arquitetura

Linguagem como interface da comunicação

A perversão da linguagem

Em algum momento se toma o signo pelo… (?)  Como chamar o que está do outro lado da tela? O fluxo por trás do fluxograma, aquilo que a linguagem tenta comunicar. Em algum momento a imagem, que deveria representar algo, se torna mais importante do que o que esta pretendia, a princípio, representar.

Para mim, escrever é como desenhar. Não sou um bom desenhista ou ilustrador. Não consigo reproduzir fielmente aquilo que vejo. E não é desse desenho que estou falando, mas sim do croquis que gosto de fazer. Da capacidade de apresentar uma ideia com poucos traços, não somente ao outro mas à mim mesmo, enquanto trabalho-a. É um exercício de tradução através do qual acontece a criação. O entendimento de algo trazido para o jogo através de uma linguagem.

O que é a arquitetura se não uma linguagem? E assim como em todas as outras, há o risco de perder-se; de se prender à forma, à materialidade e à medida, e deixar de lado aquilo que se busca através destas. Desenhar afastado do escopo do projeto e, em última instância, deixar de estar no mundo, pensando o mesmo. A arquitetura não está no fetiche de suas formas, em suas proporções ou materialidades, usando-as de forma totalmente gratuita, mas sim no que a articulação destes elementos pode evocar. Na potência de seus elementos em intermediarem o mundo. E como pode um tradutor fazer uma boa tradução sem parar para prestar atenção ao que se diz?

Como a arquitetura pode ser uma possibilidade de rasgo no véu da consciência? Como a arquitetura pode ser uma linguagem intermediadora do mundo, da beleza, da natureza, da existência, da alma? Assim como a arte, a arquitetura dispõe do que é deficiente em algumas linguagens. A matemática e a filosofia, tão antigas e eficazes em traduzir o mundo, sendo regidas tão unicamente pela razão, em algum ponto, não bastam; não dão conta. É necessário então trazer pro jogo a fantasia, o desejo, o imaginário, o fantástico, a fabulação, o espiritual. Porque fazem parte de nossa existência e, portanto, do mundo. Diferente do marqueteiro que se passa por arquiteto e cria formas-produtos que precisa vender, outros usaram a arquitetura para traduzir, por exemplo, o sublime; o que se sente ao observar um raio, com toda sua grandeza e poder que podem matá-lo, e justamente aí está sua beleza. 

Meu interesse na arquitetura como linguagem se dá em paralelo ao interesse pelo habitar. Como habito o mundo, a cidade, a casa, o corpo, a terra, o céu que gostava tanto de olhar deitado na varanda e como a arquitetura, assim como essa varanda emoldurava esse céu e revestia de azulejo o chão para deitar-me as costas, pode ser agenciadora do habitar, seja na escala do urbanismo, da arquitetura ou do mobiliário?

Meu Rio de Janeiro Invisível

Esse texto foi escrito em outubro de 2017, para Júlia Lopes, em uma de suas disciplinas, filosofia, por um Rodrigo um pouco mais novo. Gosto de dialogar com este e vários outros de mim. A prática da escrita é uma ótima ferramenta de diálogo com outras versões de si. Estou escrevendo agora, em resposta ao Rodrigo mais novo, enviando impressões de mim ao Rodrigo mais velho. Envio sinais para que ele possa melhor me escutar e assim ter uma melhor comunicação comigo. Uma das muitas coisas maravilhosas que Julia me ensinou é que a infância não é apenas cronológica. Cada vez mais, vejo como, em outras formas possíveis de conceber o tempo, nada é. O texto à seguir tenta responder à proposta de narrar a própria cidade, a partir do livro Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino.


Meu Rio de Janeiro Invisível
O vazio criado pelo piso e paredes de azulejo é preenchido pelo barulho dos sinos de vento e enquadra um céu azul, no qual o sol já se encontra à esquerda ao final da tarde. É meu lugar favorito, principalmente nos dias de sol e vento fresco. O frio do azulejo é evocado pelo corpo que ali se deita para observar os aviões que passam eventualmente. Por curiosidade, não há aeroporto na cidade. É um mistério de onde eles vêm e para onde vão.
Em certo momento, a cidade começa a se tornar menos minha. O chão passa de azulejo para asfalto e divido este com os carros. Ainda assim, na maior parte do tempo, é o caminho mais confortável. As calçadas costumam ser estreitas e mal iluminadas. De manhã o fluxo de pessoas se torna insuportável e de noite o meio-fio trás uma sensação maior de segurança. Ferragens constituem a estrutura do transporte público, mas em essência ele é plástico. Molda-se de acordo com pessoas que vem e vão para outras cidades. Estas, são os amigos imaginários do Meu Rio de Janeiro Invisível, com os quais ele
dialoga constantemente. Em superposição, eles formam o todo, uma imagem completa da cidade que não pode ser capturada.


Outro dia, comprei de um artista vindo de algum outro país da América do Sul um disco que, pra falar a verdade, nunca escutei. Ele entrou no ônibus com uma guitarra e um pequeno amplificador onde conectava o instrumento e um microfone preso à cabeça. Comprei porque naquele momento me interessei pela música. Também me interessei pelas pessoas de fone no meio do “show” e pelo Rio de Janeiro invisível do forasteiro, que não pude conhecer. Se capturadas, as crônicas do “busão” dariam boas fotografias. O comércio, a “moral” que o “piloto” dá, permitindo que os comerciantes e artistas entrem por trás sem pagar passagem, a quantidade de pessoas que entram, e só entram, até passar o túnel, a solidariedade das reclamações coletivas quando o motorista não para no ponto para outro passageiro ou começa a andar com o ônibus enquanto ainda tem gente pra descer e também a falta dela com reclamações quando a demora para que um cadeirante embarque atrasa a viagem.

Muitas mudanças ocorreram com o tempo. Onde na zona sul, até meus 17 anos, existia areia, água e sal, há agora um edifício de dois andares; décimo e décimo primeiro, onde também encontrei um lar. Essas mudanças são produtos de trocas constantes entre o corpo e o espaço que, ao se atravessarem, produzem a minha cidade invisível. Um processo que acaba junto à mim, parte de um outro processo ainda maior, que me antecede e que continua quando eu me for. Nesse meio tempo, tento ser participante ativo dessa mudança. O elenco é grande e produz um incrível espetáculo, cada figurante, protagonista da sua própria cidade invisível, onde o figurante sou eu. Aqui, o protagonista que vos fala percebe certas diferenças nos lugares onde dizem ter Cristo, roda de samba e Maracanã. Na minha cidade a roda é punk, o lazer é no Bigode e o cartão-postal é a varanda da casa verde, com os azulejos e sino de vento. Passar muito tempo nesta última talvez seja a razão de morar em uma cidade pequena, onde só existem 3 linhas de ônibus; 692, 457 e 638.


Eu costumava andar por outras áreas, subir em morros que me davam visões diferente da cidade. Em uns, boca de fumo, fuzil e classe média alta se acabando em droga. Depois, outros que davam um panorama da cidade que nunca conheci de perto. Desses, podia ver de longe o tal Cristo e outros pontos turísticos que nunca visitei. A trilha, antes Pedra da Gávea, Telégrafo e Perigoso, agora é a rampa do estacionamento que me leva ao elevador, mas a vista para o Cristo permanece. O mais curioso para mim nessas mudanças que acontecem com o tempo é ver os mesmos atores assumindo outros papéis. Quem pra mim hoje é bandido, outrora fez papel de herói. Discursos extremistas que prometem soluções rápidas caem por terra quando se busca entender a cidade como processo. A visão sobre o problema muda quando este é incluído na sua cidade e pode ser visto por você. Por anos, deixei-os de fora e busquei soluções baseadas em cidades fictícias. É impossível entender a própria bolha de percepção olhando apenas para dentro dela, uma vez que ela influencia e é influenciada por múltiplas outras.


A Farani, assim como a Lapa, é um ótimo lugar para conhecer a cidade. Intermediadas por goles e tragos, as conversas nos bares promovem trocas potentes. Um dos meus favoritos é o Bar do Bigode. O preço da cerveja se encontra na média, a rua é movimentada e quase sempre sou atendido por um dos donos. Um deles, frequentemente, senta à mesa comigo e meus amigos para conversar. Fala da sua vida, dá sugestões sobre o cardápio e transparece sua vivência no local. Segundo ele, os bares dali ficavam aberto até de manhã, e ele, que largou o antigo trabalho por amor à vida noturna, bem gostaria que as
coisas ainda fossem assim. Porém, por conta de reclamações vindas dos apartamentos que ficam em cima dos bares, agora estes fecham mais cedo.

É muito forte ler esse texto depois de alguns anos, principalmente em um contexto de pandemia, onde me vejo numa vivência do espaço muito diferente da que é narrada no texto. A diferença dos estímulos anteriores aos de hoje se soma à diferença da minha resposta; como percebo o mundo e como respondo à este; como me coloco nele; como me expresso; como sou. Outro fator que torna a leitura desse texto, hoje, ainda mais interessante para mim, é ter acabado de ler o conto A Autoestrada do Sul, de Júlio Cortázar, indicado por Luame, professor da disciplina Repertório, qual Julia também leciona em outro período. O texto narra um episódio na vida dos personagens no qual suas rotinas são modificadas por um acontecimento: um trânsito de dias. A partir disso, se criam novas relações, organizações sociais, espaciais e econômicas, com diversos desdobramentos, como gravidez e morte.

Me questiono em algumas esferas. Numa mais ampla e externa, tento imaginar o que é a cidade. Do que é construída, além de asfalto, concreto e fachada de vidro? O quanto poderíamos tatear sua alma a partir de narrativas de Cidades Invisíveis de diversas pessoas em diferentes tempos? Já em uma esfera mais interna, me descubro em várias relações comigo mesmo não percebidas no dia a dia. Do que em mim sinto falta? Qual Rodrigo preciso perdoar? Com qual posso aprender? Com quais preciso me reconectar? São nessas situações que se tornam pertinentes as agonias; quando advém de elucidações que nos deixam ávidos a nos movermos.

Me desespero a fugir de onde estou
Escapar de tudo que me prende
E me limita
E me impede de ser
Me desespero em correr
Em direção à mim
E para isso
Quero correr de quem eu sou

imaginário e existência

Quando eu era mais novo eu sentia o mundo de outra forma
existir pra mim era uma experiência diferente do que é hoje
o mundo e a vida pra mim tinham outro significado
assim como minha noção do meu tamanho no mundo

O tamanho do ceu
do mundo
e as distancias da cidade
minha noção de tempo também
tempo e espaço

A ideia de futuro
o que ele era
e o quão longe estava
Logo,
tudo parecia mais possível

O quanto durava o dia
o quanto ele representava da minha vida


tão logo
um dia
nunca era só mais um

A importância que as coisas novas tinham
e como muita coisa era novidade

Não acho que seja apenas um movimento natural
que tenha a ver apenas com o passar dos anos


O que determina o fim da infância, mais do que o tempo
é tudo aquilo que não é natural
todas as práticas que incorporamos
e por elas deixamos de brincar

Foi o capital quem chegou e me disse que se eu não tiver dinheiro
não vou ser feliz
Foi o mercado que chegou e disse que se eu não produzir
não vou ter dinheiro
Foi a economia quem me ditou que o tempo é dinheiro
e eu não tenho muito
Eai eu comecei a andar pelo mundo assim
ansioso

Night Scape

aperte o play
feche os olhos
e imagine

os olhos chegam a arder um pouco
com o ar frio
que atravessa o corpo
como um ataque
e ao mesmo tempo um abraço
que invade os pulmões
com entusiasmo
e tem cheiro de noite
assim como as estrelas no céu
as luzes da cidade se acendem
nas janelas dos prédios
onde em cada apartamento
em cada escritório
acontece uma vida
os carros em movimento
o fluxo de pessoas
sozinho no terraço do prédio
muito alto
observo tudo isso
todas essas camadas sobrepostas
como uma grande orquestra
a cidade parece estar viva
e eu também
eu sou parte dela
e também estou aceso
eu também estou vivo

O Poço

Essa publicação contém spoilers sobre os filmes O Poço e Donnie Darko.

Recentemente assisti ao filme O Poço (The Platform), do diretor Galder Gaztelu-Urrutia, lançado este ano (2020). Esse filme mexeu muito comigo e me fez passar a madrugada em claro pensando sobre muitas coisas. Acontece que ideais que carrego comigo e que direcionam minhas ações foram totalmente abalados.

O filme se passa em um sistema corrompido. Existe uma história, qual não achei fontes ou informações sobre sua veracidade, que conta sobre um experimento feito com macacos. Seis macacos foram colocados em uma jaula com um cacho de banana pendurado no alto e uma escada por onde seria possível alcança-lo. Porém, quando um dos animais tentava subir, um jato de água fria era acionado contra os outros cinco. Dessa forma, sempre que um macaco se aproximava da escada, os outros cinco espancavam-o. Os macacos, um a um, foram sendo substituídos e o novato nunca chegava a experimentar o jato de água, pois os outros que já sabiam o que aconteceria impediam com violência qualquer um que se aproximasse da escada. Assim, o novato que chegava a apanhar, aprendia a bater também no próximo macaco desavisado que tentasse apanhar as bananas, mesmo sem saber o porque. O interessante é que após todos os seis primeiros macacos terem sido substituídos por outros que nunca tomaram o jato de água, a repressão contra os que tentavam se aproximar da escada foi mantida. É isso que eu chamo aqui de sistema corrompido. Todo novo macaco acaba por reproduzir o habito violento e é muito difícil um deles mudar essa estrutura.

O mesmo acontece no cenário mostrado pelo filme. Uma plataforma com comida desce todo dia nas celas que estão uma em cima da outra, de forma que cada cela vai receber os restos das anteriores. Quanto mais baixo o nível, menos comida. Mesmo existindo um rodízio mensal, fazendo com que todo mês as pessoas parem em um nível diferente, aqueles que obtém o privilégio de cair em um nível alto não se preocupam em comer o máximo que podem. Fazem isso mesmo sabendo que existem níveis abaixo que ficarão sem comida por conta da falta de solidariedade e que no próximo mês podem estar lá. Na verdade, fazem justamente por isso. Em diversos momentos, os personagens mostram o discurso de “quando eu estiver lá embaixo, os de cima farão o mesmo comigo”.

Existem alguns personagens bem curiosos. O protagonista (Goreng), seu primeiro companheiro de cela (Trimagasi), uma outra companheira de cela que entrou ali por vontade própria (Imoguiri) e a criança filha de Miharu. Trimagasi é o mais fácil de caracterizar. Ele é o tio do grupo da família, extremamente ressentido com a sociedade e que reproduz ferrenhamente discursos de ódio. Imoguiri trabalhava mandando pessoas para o poço e mostra desconhecer o quão fundo este é. Aqueles que fazem a máquina girar desconhecem suas profundezas. Os políticos, grandes empresários e donos de bancos, assim como a classe média, não tem contato com os lugares mais miseráveis gerados pelo capitalismo. Ao entrar no poço, arrependida por ter mandado pessoas para lá, Imoguiri todos os dias separa uma quantidade suficiente de comida para si e depois separa mais outra para os da cela de baixo. Pede então para que comam apenas aquilo e separem a mesma quantidade para os da cela seguinte, repassando a mensagem. Segundo Imoguiri, existe comida suficiente para todos os níveis se a divisão for justa. Acontece que todo dia Imoguiri insiste em pedir para que os de baixo reproduzam suas ações sem obter sucesso. Goreng, no final do filme, entende que está em um sistema corrompido e é inútil tentar salva-lo. Cabe a ele então, salvar a criança, a única que ainda não foi corrompida, uma vez que ele também já matou enquanto esteve ali.

Goreng toma o papel de herói assim como o protagonista de Donnie Darko, filme lançado em 2001, sob a direção de Richard Kelly. No filme, o sistema corrompido é temporal. O protagonista entende que não é possível salvar sua realidade e que a existência efêmera desta implica fatalmente no colapso de todas as realidades. Donnie atinge a maturidade de direcionar seus esforços para salvar a realidade da qual ele não faz parte. A ligação entre os dois filmes me fez também lembrar do personagem bíblico Noé. Quando Deus vê o mundo corrompido pelo pecado e entende que não é possível salvar aqueles homens, manda Noé preparar uma arca para garantir que a vida sobreviva após o dilúvio. É isso que Goreng e Donnie fazem.


A música Mad World, trilha sonora do filme, compõe a ideia de sacrifício. O personagem sorri sabendo que vai morrer e tudo vai voltar ao normal.

O Poço me fez questionar se estamos em um sistema corrompido, quem sou eu nesse sistema e como projetar um mundo pós dilúvio. Me questiono se meus ideais e desejos de projetos que visam melhorar situações sociais me tornam semelhante à Imoguiri, que romantiza a situação e acredita que pode mudar o sistema. Passei a pensar muito, principalmente, em, no caso de estarmos em um sistema corrompido, como que eu, como futuro arquiteto, ou como cidadão, projeto um mundo pós apocalíptico. Se nosso mundo estiver fadado ao colapso, como projetar uma arca para assegurar que exista esperança de um outro mundo mesmo sabendo que eu provavelmente não participarei deste.? O que seria, nesse caso, a criança de O Poço, que é a esperança? O que ainda não foi corrompido e como proteger-lo?

A história está cheia de exemplos de lutas que tornaram possíveis, hoje, melhorias que aqueles que lutaram por isso não puderam desfrutar. O mundo está cada vez mais colapsando por conta do nosso egoismo. Queremos tudo agora sem nos preocuparmos com gerações futuras. Estamos esgotando reservas de recursos naturais essenciais à vida, gerando problemas também para o agora. Mazelas sociais, desastres ambientais e problemas de saúde, seja física, emocional ou mental. Talvez seja preciso aprendermos que nossas ações mais eficazes são as que seus resultados não contemplaremos nem nos contemplarão. Em uma menor escala, no caso da quarentena, a maior questão não é como lidamos como ela, mas com o que vêm após. Nossa forma de produzir, de conviver, de estudar e de estar no mudo deve ser questionada urgentemente.

relicário

uma vez te perguntei
se tu não tem
nem mesmo
um dia
ruim

se não teve nem mesmo um dia
que a pá acordou virada para você

você toma seu café
conversa com as plantas
conversa com a tv
e ultimamente com o smartphone também
tem vezes que você tenta conversar comigo
mas eu não converso com você

tenho vontade de chorar
toda vez que vejo click
tenho vontade de chorar
toda vez que vejo você

foi combinado
que você só seria velha
quando o cabelo ficasse branco
e ele branco ficou

o tempo cumpre todas as suas promessas
e sorri perversamente
quando eu me demoro um pouco mais
antes de um
“tchau mãe,
to saindo. até mais”
eu me demoro um pouco mais
um pouco mais do que devia
devia ter sido mais ágil
mas então o mundo para
.
quando foi que você ficou tão mais frágil?
.
.
.
antes de 10 de janeiro
você já sonhava com essa criança
e quando perguntavam como nos parecíamos tanto
se não era o sangue
você dizia
que eu colava minha cara na sua
quando dormia

a criança dava trabalho
e o homem velho não te merecia
mas você ficou por mim

dos netos aos filhos
todos falam o quanto ele era difícil
e você, logo você
você não
você conta como se divertiam
e como viajavam
eu invejo seu coração bom
eu invejo sua bondade incansável

desde antes de 10 de janeiro
você sonha até hoje com esse menino
sempre com a mesma idade
ele mergulhava nos livros pela manhã
e negociava com o tempo até tarde

“meu avô é a pessoa mais velha que conheço
e tem isso aqui de anos
já você tem essa idade
e eu tenho essa daqui
você pode esperar um pouco mais
antes de ir?”

que criança especial!
e não estou sendo arrogante
porque não falo de mim
estou falando dela
e é tão forte o quanto está na terceira pessoa
que eu gostaria de abraça-la
e dizer pra ela
que vai ficar tudo bem

me despedi da varanda de azulejos
do recorte único do azul
e sinto que deixei-a lá

sou uma farsa

a verdade é:
quero cuidar dos problemas do mundo
para não precisar cuidar dos meus
eu to aqui me fingindo de adulto
escrevendo sobre isso tudo
e deixando essa criança lá
provavelmente decepcionada
perdida e sozinha no mundo

eu espero não fazer o mesmo com você, mãe
eu to pensando em ir
e eu to pensando se você vai se sentir sozinha
e se vai ficar triste também

eu espero que não
eu espero que você fique bem

obrigado pela vida incrível até aqui
“Meu rosto é meu, minhas mãos são minhasminha boca é minha… mas eu não. Eu sou seu.” – Capitão Fantástico, 2016

a pipa evoca a luz do sol

a pipa evoca a luz do sol
no fim de tarde, antes do sol se pôr, mas já em algum ponto onde os prédios não me permitem vê-lo ao olhar para o céu
a pipa sobe
aparece no meu recorte de azul
e evoca a luz do sol
nela, sua existência faz superfície
assim a arte deve ser
como a pipa
não a atração principal
mas superfície para uma coisa outra do mundo
permitindo que sua luz nos alcance

a fantasia e o mundo real

Quando criança, adorava as histórias fantásticas. Na noite em que li, pela primeira vez, Harry Potter, minha mãe conta que eu delirava. Falava sobre a história enquanto, dormindo, sonhava. Um dia, deixei os livros de magia e aventura de lado. Me fechei nos que falavam sobre o mundo real e seus problemas. Cai na armadilha de acreditar que o fantástico era um escudo sob o qual nos escondemos da realidade. Hoje, na quarentena que acontece devido ao coronavírus, me vejo necessitado, mais do que nunca, de fôlego.

A rotina de home office e aulas virtuais, estando preso em casa, se torna ainda mais maçante com o bombardeamento de notícias sobre assassinatos de indígenas, o garimpo incentivado pelo presidente da república, entre suas outras peripécias, e familiares no whatsapp demonstrando apoio ao atual governo da morte. Nisso, estou tentando terminar o livro 8 reações para o depois, que retrata remoções de pessoas de suas casas em prol de eventos esportivos como as olimpíadas. Se tornou insuportável. Em primeiro lugar, me exilei das redes sociais, onde lia coisas impossíveis de engolir. Em segundo, decidi retomar o contato com o fantástico. Porém, o tempo lendo o mundo de forma mais séria, me trouxe outra visão sobre a magia, a fantasia e o místico.

Uma história que gosto muito e que ouvi em um vídeo de um sujeito chamado Alan Watts, nos convida a imaginar que somos Deuses com o poder de sonhar uma vida inteira em apenas uma noite. E podemos, nesse sonho, vivermos o que quisermos. Obviamente, num primeiro momento, realizariamos todos os nossos desejos até que enjoassemos das experiências tidas como ideais. Então, nos desafiariamos a viver uma situação inusitada, nos esquecendo de que somos Deuses, apenas para ver como nos sairiamos. Bolariamos diversas situações diferentes em cada noite, até que, um dia, nos lançariamos aqui; nesse momento; onde estamos hoje.

Parece surreal, não? Gostaria de contrapor essa sugestão de Watts ao discurso “a vida é assim” do “mundo real”. Quando o ouro era utilizado como moeda de troca, era complicado se locomover com ele para fazer grandes transações. Portanto, deixava-se a quantidade guardada com alguém de confiança e que cobraria alguma taxa pelo serviço. Essa pessoa dava um comprovante ao dono do ouro para que este o retirasse futuramente ou pudesse realizar transações apenas com o comprovante. Temos então o início do banco e do dinheiro. Acontece que o dinheiro não representa mais a quantidade de ouro existente. Temos muito mais nota circulando do que ouro, o que gera diversas situações. Surge a necessidade de uma ciência que lide com os problemas que inventamos; a economia. Além de não existir em ouro o que se representa com dinheiro, nem mesmo existe em dinheiro o que temos em dígitos. Se todos quiserem esvaziar sua conta ao mesmo tempo, não é possível. Ainda mais curioso é como funciona a bolsa de valores. Pessoas ganham e perdem muito dinheiro de uma hora pra outra com um escândalo em uma empresa. Não existe um lugar de onde saia esse dinheiro e nem mesmo para onde ele vá quando é perdido. O valor é inventado. Nas últimas eleições vi pessoas próximas elegendo uma figura que apoia a tortura em prol da economia. Essa coisa, economia, não foi criada pelo Deus cristão e nem mesmo pelo mundo qual o surgimento a ciência explica. Entretanto, estamos esgotando reservas de elementos naturais essenciais à vida, não apenas humana, por conta de representações que já se distanciaram e muito de seus significados.

Comparemos o que vivemos agora com o que acontece ao reunir amigos para jogar Banco Imobiliário. O jogo de tabuleiro onde o objetivo é ficar rico funciona com notas de dinheiro que, em relação ao que chamamos de mundo real, são falsas. Porém, mesmo no Banco Imobiliário, é comum discussões no desenrolar do jogo por conta do dinheiro de mentira. Fazemos o mesmo. Nos matamos e nos empenhamos em destruir o planeta por conta dos valores colocados num sistema totalmente desconexo do mundo. A maior questão sobre o discurso “o mundo é assim” não é que ele mente sobre dizer que o mundo não pode ser outro, mas que omite que o que temos hoje é justamente a maior invenção já vista. Retiramos populações de um local, passando por cima de toda sua história e conexão com o lugar, para criar, do nada, uma coisa outra imposta por uma arquitetura internacional. Moldamos nossos corpos e vestimentas com base no que influenciadores disseminam em redes sociais. Nos alimentamos, não com produtos da região e no tempo que a terra ou animais levam para provê-los, mas sim fazemos com que animais vivam metade do que deveriam para produzir leite e ovos vezes mais do que poderiam. Queremos falar sobre realidade?? O mundo não é nada assim. Nós, de maneira extremamente perversa e violenta, torcemos o mundo à essa forma e, como aquele que sonha esquecendo que é Deus, tiramos nossa responsabilidade sobre o que criamos. Acontece que as invenções que criamos estão nos engolindo e continuamos nos recusando a acordar desse transe. As ideias como a tecnologia e a economia, mesmo não atendendo aos propósitos iniciais de tornar a vida mais fácil, passando a atender a si próprias, são defendidas ferrenhamente pelos guardiões do mundo real. Chegamos ao ponto de pensar sacrificar a vida num momento de pandemia por uma ferramente que teria como propósito melhorá-la. 

De certa forma, faz sentido. A criança que fica milionária no Banco Imobiliário não quer que a partida acabe pois tudo o que lhe dá valor só existe no jogo. Sem a ilusão do valor de um pedaço de papel que chamamos dinheiro, homens poderosos não são nada. Vejo hoje, portanto, a fantasia não como um escudo sob o qual me escondo do mundo real, mas como munição. Uma resposta a essa outra fantasia que chamam realidade  A mais perigosa armadilha é enfrentar esse mundo aceitando-o como real e abandonando a fantasia, pois, esta, é a única forma possível de enfrentá-lo e modificá-lo.

Montagem Digital – Rodrigo Lugão

Os Manuais – Capítulo II ÉTICA

Capítulo II – Ética

I. Introdução

Ética é um dos termos pelos quais me interesso muito no processo de construção de mundo. Faz parte de um exercício diário de entender o mundo através da construção de um repertório de palavras que me ajudam a criar uma visão de mundo ao mesmo tempo que me posiciono nele. A ética é fundamental nesse processo pois é justamente uma forma de andar por esta terra. Na minha visão, a única sustentável como modelo. Não sou um escritor confiável, com certezas estabelecidas em quem se deva buscar referências. Como em todas as outras publicações, faço aqui um ensaio. Uma tentativa de organizar as ideias para produzir pensamentos e criar um repertório, partindo da crença de que o mundo é construído a partir de discursos e é nossa responsabilidade aquilo o que dizemos, acreditamos, como nos posicionamos e o mundo que construímos. É justamente ai, nesse sentimento de responsabilidade por nossas ações no mundo, que começamos a ser éticos.

Segundo o Google Dicionário
substantivo feminino

1.parte da filosofia responsável pela investigação dos princípios que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento humano, refletindo esp. a respeito da essência das normas, valores, prescrições e exortações presentes em qualquer realidade social.

2.POR EXTENSÃO: conjunto de regras e preceitos de ordem valorativa e moral de um indivíduo, de um grupo social ou de uma sociedade.”é. profissional”

II. Os Fundamentos da Ética

1.Existe um mundo além de mim. Existe o outro.

2.É importante conhecer esse mundo. É importante conhecer o outro.

3.Por mais que eu me aproxime e conheça, nunca compreenderei o mundo e o outro em sua totalidade. Compreender o mundo em sua totalidade significa que o mundo é meu.

4.É importante conhecer o mundo (e o outro) através do que este me diz, através dele e não de mim.

5.A ética é uma prática diária que demanda atenção constante dos meus movimentos no mundo, sempre me questionando se estou passando por cima de outro corpo, se estou invadindo o território do outro.

III. Crônicas

A criança A avista o brinquedo atraente na mão da criança B e então o agarra, obviamente. Por que não? Ela o quer, então ela o pega. Em seguida, acontece algo surreal para o pequeno ser: dor. A criança B lança uma mordida no bracinho da criança A. O que é essa coisa que se coloca contra sua vontade?

O primeiro círculo, o vermelho, é o menor de todos espacialmente. Seus limites protegem meu íntimo. Segredos, histórias, sonhos, medos, privacidade, direitos individuais. Em seguida, vem o amarelo, que permite intersecções à curta distância. Ali habitam meu amigos, amores, colegas, relações casuais. O amarelo é delimitado entre o círculo vermelho e o círculo verde, o maior de todos; o círculo da democracia. O verde engloba todo o coletivo do qual faço parte, em diferentes escalas. Meu bairro, minha cidade, meu país, e por aí vai. Danço entre outros corpos, permitindo que nossos amarelos se toquem, aproximando mais ou menos nossos vermelhos, sem que estes se encostem. Num conjunto, formamos um grande verde, do qual todos fazemos parte. Em um momento, uma colisão. Um corpo colide com o meu e não se desculpa. Cruza a linha do círculo vermelho e invade meu território. Alguns outros se juntam a este e impõem seus círculos ao meu território. Constroem seus amarelos e verdes por cima do meu vermelho e chamam de democracia. Há algumas violações de territórios como relacionamentos abusivos, onde aquele com quem se divide o amarelo, tenta sufocar o vermelho, tirar seu espaço individual e afoga-lo em amarelo, e depois no seu próprio vermelho. Existem também as violações do verde, que tenta passar por cima do vermelho e também vice-versa. Sempre que um corpo, seja sozinho ou em conjunto, viola algum desses espaços que é do outro, seja esse outro singular ou plural, chamamos Anti-Ética. É anti-ético o corpo que não tem noção de si no espaço em relação à outros corpos. Invade territórios, colide com outros corpos e atravessa o espaço sem se preocupar com o impacto de seus movimentos. Na dança do mundo, que demanda posicionamento, responsabilidade, coragem e verdade, a anti-ética é crime terrível. Crime contra o outro, conta o mundo e contra si próprio.

IV. Referências

“A abordagem do Outro, ou a aparição, pressupõe o mundo social, mas me diz que eu não consigo encontrar esse mundo a partir da posição de completo entendimento, o que faria o mundo ser “meu”. O mundo não me pertence.”

Lévinas, Emmanuel. Totality and Infinity, trans. Alphonso Lingis, Pittsburgh: Duquesne University Press, 1969, p.213; originally (Retirado por mim de Deutsche, Rosalyn. A arte de ser testemunha na esfera política dos tempos de guerra,  2009, pág 177. Originalmente proferido em inglês, Madri, Espanha.)

“…o Outro implica a possibilidade de Outros, para os quais eu mesmo sou um Outro… sou levado a me dar conta de que o Outro não existe só para mim, de que meu vizinho também é vizinho de uma terceira parte e que de fato para eles eu sou a terceira parte.”

Davis, Colin. Lévinas: an introduction. Notre Dame: University of Notre Dame Press, 1996, p.83.

V. Links
A ética se mostra importante em um mundo construído pelo discurso. O termo ganha potencia quando dialoga com O Imaginário, já pensado em outra publicação (https://arquiteturadoimaginario.wordpress.com/2020/03/05/o-imaginario/). Existe um discurso vigente no país que constrói nosso imaginário passando por cima de diferentes culturas, gêneros, ideias e formas de ser.

Neste vídeo, a palestrante dá seu depoimento de como a construção do imaginário de forma anti-ética impacta sua vida.

VI. MOODBOARD

MOODBOARD I – PANDEMIA

NÃO É APENAS NA SAÚDE E ECONOMIA QUE NÃO ESTAMOS PREPARADOS PARA MOMENTOS COMO A PANDEMIA, É CRIATIVAMENTE.

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Morador do DF cria cabine de limpeza na porta de casa para evitar contaminação pelo coronavírus

Que outras formas de comunicação, de habitar a cidade, de educação e de trabalho podemos pensar a partir da crise?

Enquanto a gente recorda os males que a guerra traz, fraldas branquinhas na corda lembram bandeiras de paz. -COLBERT RANGEL COELHO

Saudade das toalhas na corda e um recorte maior de céu.
Explorando o apartamento tentando expandir o espaço na quarentena.

Quando vim pra cidade grande senti falta de varanda, de contato social, contato com vizinho. Entendo a necessidade da verticalização mas a gente não tá inventando novas formas de verticalizar. E a que existe hoje é bem cômoda, na verdade, mas tem um preço. E agora, nesse momento, a gente tá vendo isso, estando isolados do mundo. Se a gente já precisava tanto se isolar do mundo, é porque ele não tá legal.

Alessandra Carius, entrevista por: Rodrigo Lugão